Uma
reforma necessária e urgente
João Alfredo Telles Melo
A palavra reforma tornou-se uma das principais referências
do momento político que o Brasil atravessa. Divergências
à parte sobre seu teor, elas constituem a base
para mudanças profundas, visando a uma sociedade
mais justa, com menos desigualdades sociais e melhores
condições de vida para todos.
A quinta reforma, relegada em segundo plano por enquanto,
é fundamental para acabar com a corrupção
e com a impunidade que minam nossos recursos públicos,
põem em descrédito as instituições
e abalam a auto-estima do povo brasileiro. Mais do que
isso, ela é indispensável para promover
a justiça social e completar o processo de democratização
política e institucional do país.
Trata-se da Reforma do Judiciário. O próprio
presidente Lula clamou por ela ao comparar o poder a uma
"caixa preta". Com poucas palavras, nosso presidente
resumiu a luta que vem sendo travada desde a Constituinte
de 1988 pela democratização e moralização
desse poder no país. Já derrubamos um presidente
da República; cassamos deputados e senadores envolvidos
com corrupção. Só o poder Judiciário
continua encastelado, fechado a qualquer controle por
parte da sociedade.
Para dar resposta à mídia, ou por pressão
da sociedade, como aconteceu no próprio Superior
Tribunal de Justiça (STJ), alguns magistrados foram
afastados, em caráter temporário, por se
tornarem alvo de investigação interna. Mas,
ao arrefecer o interesse da mídia, esses magistrados
podem retornar impunes e reassumirem suas togas, como
aconteceu com o desembargador Ernani Barreira, do Tribunal
de Justiça de nosso Estado.
Os maus magistrados, que felizmente são minoria,
acabam maculando um poder que é a última
instância à disposição do cidadão
para garantir seus direitos.
Há outros problemas, como a morosidade dos processos
e a promiscuidade configurada pelos casos de magistrados
aposentados e filhos seus que passam a advogar em benefício
daqueles que têm dinheiro suficiente para bancar
seus caros e eficientes serviços.
Os cartórios, por sua vez, estão dominados
por feudos estaduais de magistrados, com uma rede de parentes
e amigos que enriquecem às custas da cobrança
de taxas extorsivas pelo mais simples serviço,
como reconhecimento de assinatura, às estupendas
quantias que o dono de um imóvel tem de pagar para
conseguir uma certidão de propriedade.
A sociedade não pode mais conviver com um Judiciário
intocável e de tão difícil acesso.
As resistências são muitas, mas é
preciso vencê-las, em favor de um poder moralizado,
democrático e acessível ao povo.
O Executivo já deu sua deixa, ao criar a Secretaria
de Reforma do Judiciário. Até membros da
cúpula deste poder se pronunciaram em favor do
controle externo, como o ministro do Supremo Tribunal
Federal (STF), Celso de Mello.
A própria sociedade começa a se organizar
nesse sentido. A partir da experiência pioneira
do Observatório do Judiciário do Ceará,
já se têm notícias de iniciativas
semelhantes no Distrito Federal, Rio Grande do Norte,
Maranhão e Rio de Janeiro - onde deve ser criado
o Observatório da Justiça Federal.
Falta o Legislativo entrar nessa cruzada, instalando a
Comissão Especial para retomar as discussões
sobre a reforma do Judiciário e aprovando as duas
CPIs para investigar denúncias envolvendo membros
dos tribunais superiores do País, na Câmara
Federal, e do Ceará, na Assembléia Legislativa.
Publicado
no jornal O Povo em 24/05/03