A justiça
dos "tocáveis"
Guálter George
Um grupo de jornalistas cearenses teve recente oportunidade
de conhecer um Judiciário novo que parece estar se
desenhando. Foi durante oficina de duas semanas, organizada
por entidades classistas de juízes, sob o pretexto
de melhor instrumentalizar profissionais de comunicação
dos dois principais órgãos locais impressos.
Acontece que, por uma feliz coincidência, em meio
ao curso surgiram as críticas do presidente Luiz
Inácio Lula da Silva ao poder e a história
de uma "caixa-preta" que precisa ser aberta.
Enquanto os jornais repercutiam reações iradas
de representantes da Justiça, especialmente nas suas
cúpulas, os privilegiados jornalistas-alunos se integravam
a um debate sereno acerca das palavras de Lula.
A faixa etária baixa dos juízes que se propuseram
a ajudar os jornalistas a se tornarem menos ignorantes no
trato da linguagem jurídica explica a postura mais
progressista por eles adotada no debate e, ao mesmo tempo,
deixa no ar um clima de boas perspectivas futuras. É
certo que o Judiciário não vive algo sequer
próximo a confronto de gerações, mas,
acredita-se igualmente, uma renovação está
em curso e o colocará, inevitavelmente, em melhor
sintonia com os tempos novos que vivenciamos.
O debate sereno a que assistimos, em sala de aula, mostrou,
na defesa da Justiça, argumentos que demonstram plena
consciência de que, ao lado de direitos inquestionáveis,
existem também os deveres. Um deles, ser transparente.
A idéia de que a Justiça seja feita por super-homens,
infalíveis, se supera pela própria realidade
dos fatos. Reflexo da sociedade da qual saem seus membros,
o poder também é feito por bons e maus membros.
Uma maior abertura ajudará a depurar o quadro, evitando
confundir a ação de um com o funcionamento
do todo, parecendo animador que tal pensamento já
domine a cabeça de parcelas cada vez mais representativas
do Judiciário.
Publicado
em 05.05.2003 no Jornal O Povo