Alguém tem que gritar*
Ronaldo Bastos **
A opinião pública se quedou apreensiva, diante do corajoso grito lançado pelo Governador nas páginas azuis do O POVO, no dia três de janeiro. As escandalosas sentenças emitidas por parcela do Judiciário, favorecendo policiais acusados da prática de crimes, inclusive com promoções, foram duramente questionadas pelo chefe do Executivo.
As mazelas do Judiciário não representam novidade. A conduta de seus membros gerou, nos últimos anos, protestos generalizados da nação, tornando premente a criação de instrumento de controle externo que pudesse colaborar com a moralização do setor. O que calou fundo foi a percepção de que esta atitude degenerada e irresponsável de parcela do Judiciário, extraiu da garganta do próprio Governador uma reação indignada, quase um grito desesperado em favor do respeito às instituições e ao interesse público. A crônica policial registrou episódios graves envolvendo policiais nos últimos quinze anos, foi assim o flagrante de tortura na furtos e roubos e o notório ''caso França''. Em todas estas situações, mormente no ''caso França'', esbarrou no Judiciário o aprofundamento e a punição adequada a crimes tão graves.
O Ceará tem se destacado pela vanguarda nas questões relacionadas à segurança pública. Aqui surgiu a pioneira corregedoria unificada, com o comando externo e obrigatório (por imposição de lei) de um Juiz, Promotor ou Advogado. Aqui o Governo teve a coragem de criar comissão especial sob a presidência do Procurador Geral de Justiça para apurar os crimes de sua polícia. É com esta autoridade que o Governador grita. Grita porque o silêncio conformado de muitos, inclusive da OAB e da Corregedoria do Tribunal de Justiça, fomentou as necessárias condições para que esta situação se instalasse. Grita porque alguém tem que gritar.
** Ronaldo Bastos é Delegado da Corregedoria Geral dos Órgãos de Segurança e membro da Anistia Internacional
* Publicado no jornal O Povo em 06 de janeiro de 2005 |