TSUNAMI

Editorial do Jornal O Povo

À medida que os dias passam, mais a comunidade internacional amplia sua percepção da tragédia monumental que se abateu sobre oito países da Ásia e da África. O número de mortos já se aproxima da casa dos cem mil, e a devastação material alcança cifras impressionantes, com seus milhões de desabrigados. Enquanto isso, a comunidade internacional começa a se indagar sobre as lições a serem retiradas da tragédia.

A primeira constatação é a de que muitas dessas mortes poderiam ter sido evitadas, se tivesse havido um maior empenho dos centros de controle sismológicos (dominados pelos países desenvolvidos) em avisar os países próximos do epicentro do fenômeno sobre suas possíveis conseqüências. Basta dizer que algumas dessas áreas foram atingidas seis horas depois – o que é muito tempo em termos de um mundo conectado instantaneamente pela Internet.

Alegou-se, no entanto, que a região afetada não estava interligada aos sistemas de controle desenvolvidos para esse fim. Sem entrar no nas razões dessa carência (inaceitável para uma região de conhecida instabilidade sismológica), basta uma pergunta: essas áreas não estão também conectadas ao sistema financeiro mundial? Ora, se é possível transmitir em tempo real qualquer oscilação no mercado financeiro, não se poderia usar a mesma sofisticada estrutura tecnológica de comunicação para comunicar problemas de outra ordem que não os relativos aos interesses da banca? Tem algo de muito errado nessa hierarquia de valores. Aliás, a própria reação imediata e voluntária de milhares de internautas, nos minutos seguintes ao fenômeno, convocando a solidariedade internacional, desmente os argumentos dos países que tinham as informações científicas sobre as possíveis conseqüências do cataclisma. Faltou mesmo foi vontade política e sensibilidade humana.

O que se passou na área atingida interessa a todas as pessoas do planeta, pois ocorreu também um fenômeno que provavelmente afetará suas vidas, no futuro próximo: o eixo da Terra sofreu uma inclinação, cujas conseqüências são ainda imprevisíveis. Suspeita-se que o clima terrestre será inevitavelmente afetado. Trata-se do alerta mais ostensivo jamais dado pelo planeta, nos últimos tempos, sobre profundas modificações em curso. Será que dessa vez a mensagem foi captada, depois de tantas outras que vêm sendo ignoradas há décadas, quando surgiram as primeiras advertências sobre os descalabros produzidos na Natureza por um modelo mundial de desenvolvimento totalmente desrespeitosos às suas leis?

Na verdade, há uma certa displicência nos centros decisórios de poder mundial sobre questões relativas ao controle ambiental. A razão é conhecida: os protocolos sobre o meio ambiente impõem determinadas exigências que afetam interesses de grupos econômicos restritos ou de algum país em particular. Veja-se a resistência irracional apresentada por alguns países poderosos ao Protocolo de Kyoto.

Ora, está cada vez mais claro que a Terra está passando por crescentes perturbações climáticas, em decorrência da atuação predatória do homem. A emissão de gases, por exemplo, atinge a atmosfera, trazendo como um dos seus efeitos o aquecimento global. Isso tem levado ao derretimento das geleiras, atingindo as calotas polares: basta ver o registro de icebergs monumentais desprendidos de suas bases e levados por correntes marinhas. No rastro do derretimento das geleiras, vêem as inundações.

O apelo para uma articulação mais responsável da comunidade internacional para barrar o processo de agressão ambiental deixou de ser um grito de movimentos exóticos, para se tornar um imperativo racional de sobrevivência do planeta. Não é mais possível conduzir essa questão pela ótica exclusiva de interesses restritos, que sacrificam o destino da humanidade aos seus particularismos imediatistas. Chegou, pois, o momento de todos se darem as mãos para cuidar zelosamente da Casa comum - o planeta Terra - antes que desabe totalmente sobre nós, por conta de nossa cegueira.

Publicado no Jornal O Povo em 31 de dezembro de 2004

 
   
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