CONVOCAÇÃO*

Fátima Vilanova **

Entra ano, sai ano, e assistimos as mesmas injustiças e despudor. Os Parlamentos, a começar pelo Congresso Nacional, concedem recesso aos parlamentares nos meses de julho, e de 15 de dezembro a 15 de fevereiro. Três meses de férias remuneradas. No Congresso Nacional, trabalham de terça a quinta-feira, sem desconto no salário. Os Legislativos estaduais, via de regra, seguem o mesmo figurino: pouco trabalho e mordomias.

Os privilégios, eles mesmos - os parlamentares - se concedem, legislando em causa própria. O escárnio com a população trabalhadora é desmedido. Para a concessão de um salário mínimo decente e reajustes do funcionalismo, os governos mostram números e mais números ''comprovando'' a inexistência de recursos e a quebra da Previdência. Para os Legislativos, os discursos mudam e jorram recursos. As convocações extraordinárias remuneradas estão aí para confirmar a assertiva. A Assembléia Legislativa do Ceará, para trabalhar no período de 20 a 30 de dezembro deste ano, embolsará R$ 877 mil, cabendo a cada deputado R$ 19.080.

Assim, realmente, não sobra dinheiro para aplicação nas demandas da população, que a cada eleição, vê frustadas as suas esperanças. Os políticos ignoram a razão de ser da política, que é servir a coletividade, ao bem comum. Os bons exemplos, a começar dos que estão no topo pirâmide social, são raros. Em conseqüência, assistimos a disseminação da violência no País, fruto da injustiça institucionalizada e da impunidade dos que detêm o poder político e econômico.

Moralizar os Parlamentos seria a Reforma aplaudida por todos. O resgate da ética nas relações sociais e no âmbito das instituições mudaria a face do Brasil. Eis aí a convocação urgente da Nação.

** Fátima Vilanova é ouvidora da Universidade Estadual do Ceará (UECE) e membro do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos Humanos

* Publicado no jornal O Povo em 29 dez 2004
 
   
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