25% de desconto

Sabrina Serra Matos *

O sujeito da modernidade, como muito bem afirmou a psicanalista Elisabeth Roudinesco, ''busca na droga ou na religiosidade, no higienismo ou no culto de um corpo perfeito o ideal de uma felicidade impossível''.

Estampado nos outdoors da cidade a promoção de um medicamento utilizado para redução de peso (Xenical) com 25% de desconto. Imediatamente, associo tal ''promoção'' à descoberta recente de pesquisadores ingleses de uma vacina para dependentes de cocaína. O que as duas coisas têm em comum? Ora, a nossa sociedade é toxicômana, somos drogatitos, dependentes de objetos. Essa é a lógica da modernidade, que, diga-se de passagem, é diretamente proporcional ao desenvolvimento capitalista.

Fundada no prazer no aqui e agora, portanto, alienante, o sintoma social toxicomania, como todo sintoma, metaforiza uma verdade que não pode ser dita. A droga aliena, seja ela qual for. O termo alienado é realmente perfeito, ou seja, ali-é-nada.

No entanto, não é só pó branco que exerce tal função. Não há diferença substancial entre um grupinho celebrando um envelope de cocaína e uma liquidação num shopping,como nos disse há mais de dez anos Jurandir Freire. Somos drogaditos de objetos, esperamos que eles nos constituam enquanto sujeitos. Pode ser a cocaína, os medicamentos para redução de peso (aliás, vários outdoors que divulgam o Xenical curiosamente estão ao lado de outros também de promoção: um hamburger enorme e uma Coca-Cola de meio litro!), dos antidepressivos que prometem milagres e distanciam cada vez mais as pessoas de suas angústias, de seus infortúnios (aliás, não é à toa que o Brasil é campeão mundial em vendas desse tipo de medicamento), mas pode ser também o celular de tamanho minúsculo, conheço várias pessoas que sofrem enquanto não conseguem o menor de todos; pode ser o sexo, a comida, os títulos acadêmicos e tudo, tudo o mais.

Uma característica do conceito de objeto em psicanálise é a precariedade. Nenhum objeto nos satisfaz de modo definitivo. Quando consegue comprar o último lançamento tecnológico (o celular, por exemplo) o sujeito sente-se bem, é como se o objeto representasse a própria pessoa. No entanto, imediatamente após a aquisição, o objeto do desejo já não é mais aquele e o sujeito vai em busca de outro.

Segundo os pesquisadores, a vacina para viciados em cocaína não elimina o desejo de consumir a droga. Daí, muito provavelmente, os usuários passem a migrar para outros ''objetos'' exatamente porque o desejo não vai ser suprimido.

Fico pensando nas vacinas para viciados em celular, vacina para viciados em sexo, vacina para viciados em antidepressivos, vacina para seu filho tirar primeiro lugar no vestibular, etc, etc, etc. Outro dia um aluno disse: ''professora, deveriam descobrir uma vacina para os homossexuais'' (sic). Olhei para ele e disse: bom seria uma vacina para o preconceito!

Como não são poucas as pessoas que preferem buscar nas substâncias químicas (lícitas ou ilícitas) e/ou no consumo desenfreado a ''solução'' para seus sofrimentos, é sempre bom lembrar que nossa vida erótica se acha intimamente relacionada à nossa vida aquisitiva e que o único modo de reconhecer certas coisas é escondê-las de nós mesmos!

* SABRINA SERRA MATOS é psicóloga clínica, mestre em Saúde Pública e professora da Universidade Federal do Ceará (UFC)
** Publicado no jornal O Povo em 03 julho 2004.

 
   
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