A
construção da Violência
Nilze Costa
e Silva*
O que leva um homem a desqualificar
uma mulher, agredi-la física e sexualmente e até
assassiná-la? E o que leva uma mulher a estabelecer
uma certa cumplicidade na manutenção do comportamento
agressivo do parceiro? A primeira violência, pelo menos
numa relação conjugal, certamente não
é a primeira pancada. Tudo começa com o desrespeito
e a desqualificação.
Aliás, tudo começa
bem antes, já na infância, quando certas famílias
educam a menina como um ser frágil e desprotegido e
o menino para ser agressivo, bater e não chorar por
razões emotivas. É proibido sentir emoções
e não se deve guardar desaforos. Quase não se
fala de paz para os meninos. Não aprendem a lidar com
reações emocionais/afetivas e por isso desenvolvem
grande dificuldade de lidar com frustrações
e com a própria agressividade.
Em pequeno, quando um brinquedo
o desagradava, ele o destruía e quando adultos, é
a mulher e os filhos que funcionam como válvula de
escape para suas raivas e tensões. Em todos os casos
de violência que acompanhamos, o agressor possui uma
forte relação de posse sobre a mulher, como
se ela fosse uma propriedade sua. A predominância do
ciúme obsessivo é relatada em cenas constantes
e na maioria das vezes infundadas.
Por outro lado, a menina cresceu
e aprendeu que não pode se livrar de parceiros propensos
à violência e, na época de namoro, chegam
até a admirar o comportamento agressivo do homem. Algumas
adolescentes até gostam de namorados brigões
que são vistos como tipos protetores. O ciúme,
mesmo excessivo, muitas vezes é olhado como uma forma
de amor e zelo.
Essa parece ser a história
mais comum de casais que convivem com a violência doméstica.
Essa parece ter sido a história de Maria Farias Catunda,
engenheira recentemente assassinada pelo ex-marido Vicente
Possidônio. Em quase 20 anos de relacionamento o casal
viveu sempre em violência. O marido agredia com palavras,
gestos e pancadas, até transformar-se no assassino
frio, ao premeditar matar a ex-esposa. Não eram ignorantes,
nem pobres, ao contrário. Ele possuía muitos
livros, lia bastante e é formado em filosofia. O que
não adiantou muito, quando sua mente já estava
formada para a agressão e a maldade. Que nenhum advogado
utilize esse argumento para justificar a impunidade, mas que
possamos prevenir a violência contra a mulher, preparando-a
para que não aceite uma relação que a
humilhe e degrade sua auto-estima.
Prevenir a violência
doméstica é desconstruir a armadura masculina,
educando o homem para a ternura, a conciliação
e a suavidade. Combater a violência é evitar
a impunidade, que estimula a incidência de mais crimes
contra a mulher.
Publicado em 25 de novembro
de 2003
* Nilze Costa e Silva é escritora, uma das coordenadoras
do Fórum de Mulheres Cearenses e fundadora do NAVE
( núcleo de ação e valorização
da espécie humana). |