Punir ou tratar

Cleto Brasileiro Pontes *

"Cada vez fico mais convicto de que só tem uma saída para o Brasil, que é investir uma parte bem maior do nosso PIB no ensino fundamental profissionalizante".

O duplo assassinato ocorrido recentemente em São Paulo, envolvendo menores, gerou uma grande polêmica sobretudo concernente ao Estatuto da Criança e do Adolescente. Como cidadão, vejo a coisa com muita simplicidade. Ou seja, o direito e o dever devem ser universais, para todos. Um doutor cometendo um crime, nada de regalia como a mordomia de cela especial. O mesmo se o jovem tem 16 anos, com direito de voto, matando torna-se um simples criminoso. Se for menor ainda, deverá ter assistência especial do Estado.

Entretanto, como profissional na área de saúde mental gostaria de avançar nesta discussão. O conceito de psicopatia enquanto doença foi criada pelo psiquiatra alemão E. Kraepelin, ainda no século XIX. Uma enfermidade sem causa definida a não ser em nível hipotético. O italiano C. Lombroso defendia a tese do criminoso nato e outros estudiosos valorizavam os problemas sócio-educacionais. Não tem cura, caracterizada por comportamentos anti-sociais, nos quais o indivíduo, na sua incapacidade de sofrer, cria regras próprias a fim de impor o seu sofrimento a outrem.

Fora a prevenção, o tratamento tem que ser o carcerário. Na velhice o psicopata pode torna-se menos perverso, como foi o caso do Ronald Biggs que trocou a sua vida em liberdade no Brasil para passar seus últimos dias numa cadeia na Inglaterra, onde ele roubou o ''trem pagador''.

No Brasil, existem dois problemas graves e crônicos para solucionar um fato como este: pobreza em termos preventivos e sentimentalismo demagógico apragmático. Assim, vejamos alguns dados relacionados entre a psiquiatria e a justiça. Nas últimas três décadas, a população de Fortaleza quadruplicou, o número de psiquiatra não duplicou, os leitos psiquiátricos caíram quase 50%, o número de leitos do manicômio não aumentou, só empobreceu, a quantidade de advogados aumentou quase dez vezes. Como o número de vagas nos cursos de direito no Ceará aumentou 700%, em breve a nossa Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) terá o número de eleitores como em São Paulo, 160 mil. Lá também muitos almejam a presidência desta instituição e os candidatos estão queimando dinheiro nas suas campanhas. Obviamente os motivos são diversos, dentre eles um orçamento para 2.004 de R$ 97 milhões. Muitos ainda não se esqueceram do juiz Lalau que roubou milhões do cofre público para uma construção faraônica superfaturada.

Com esses dados, podemos perceber claramente que o bláblá demagógico cresce e as medidas preventivas minguam. Quem propuser uma medida radical que mexa com a raiz do problema tende a ser execrado e tido como antipático. John Kennedy, na sua posse, disse uma frase que se tornou ontológica: não conheço o caminho do sucesso e sim do insucesso: querer agradar a todos. Falando em EUA, sou contra a pena de morte, assim como a imbecil menção de que nos estados norte-americanos, onde aplicam esta sentença, o número de criminalidade aumenta. Pois, a diferença fundamental entre estes dois países, é que lá são sediadas as maiores multinacionais do mundo e aqui temos apenas alguns de suas filiais que vêm espoliar ainda mais a nossa economia.

Cada vez fico mais convicto de que só tem uma saída para o Brasil, que é investir uma parte bem maior do nosso produto Interno Bruto (PIB) no ensino fundamental profissionalizante. A partir dele, surgiram medidas preventivas realmente coerentes, indo da infra-estrutura até o setor da superestrutura, da legislação, como diria o pensador alemão K. Marx.

Nada mais iníqua e inócua foi a decisão do presidente Lula de tornar compulsório o registro em todos os hospitais dos casos de violência contra a mulher praticada pelo homem. Chega de tanta demagogia e vamos todos lutar corretamente pelo os nossos direitos e deveres de cidadania.

Publicado no jornal O Povo em 29 de novembro de 2003
* Cleto Brasileiro Pontes é professor na Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC)

 
®APAVV - 2004 - Todos os direitos reservados