DO OUTRO LADO DO JARDIM

Fábio Campos*

Não é de hoje que as eleições da OAB-Ceará chamam a atenção. Não por seu caráter democrático, mas sim pelo formato inusitado das campanhas. A olho nu, percebe-se que há muito dinheiro envolvido na disputa. Para um colégio eleitoral apto a votar que não chega a dez mil pessoas, os candidatos lançam mão de instrumentos típicos das grandes e caras campanhas políticas. TV em horário nobre, outdoors, rádio, bandeiras, adesivos, santinhos. E por aí vai. O espaço que a Ordem ocupa na História do País faz com que esses fatos soem estranho. Com as exceções que confirmam a regra, o discurso é corporativista. A idéia da construção de um país justo e democrático está em segundo plano. O ideal de justiça para todos passa ao largo da campanha. Reforma do Judiciário virou um tema proibido. Corrupção, promiscuidade entre advogados, clientes e magistrados são os temas intocados. Enquanto explode no País a notícia de uma rede de corrupção que tem juízes como cabeças, a maioria dos candidatos à OAB prioriza baboseiras corporativistas como caixa de assistência dos advogados.

LIXO VARRIDO PARA DEBAIXO DO TAPETE

Acordem, senhores advogados. Há uma reforma do Judiciário em pauta. Há juízes de altas cortes sob investigação. Há um confronto público entre o presidente da República e o presidente e o Supremo Tribunal Federal. Quase uma crise institucional. Há milhões de cidadãos sem acesso à Justiça. Há injustiça sendo praticada a cada segundo pela lentidão bovina na tramitação das causas. Há um Judiciário esperneando pateticamente por temer uma observação das Nações Unidas. Há um grupo de 12 notáveis advogados que pede o impeachment de um ministro do Supremo por ter confessado uma fraude na Constituição. Entre vocês, há gente que não honra o diploma. Se há um balcão de sentenças funcionando nas cortes, os intermediários da negociata possuem o canudo da faculdade de Direito. Enquanto isso, pratica-se uma campanha pela OAB que faz de conta que tais problemas não existem.

CAMPANHAS MILIONÁRIAS E FANFARRAS

Por que as campanhas para a OAB envolvem tanto dinheiro e tantos interesses? À boca miúda, ouve-se o seguinte: ''Quem está à frente da OAB consegue prestígio, facilidades junto ao Judiciário, os melhores clientes e as causas mais rentáveis''. O veterano advogado Jurandy Porto, um dos candidatos, escreveu um artigo dizendo que ''pontificam os que se servem da OAB, que a usam para ganhar prestígio pessoal. As campanhas milionárias, de custos superiores a milhões de reais, levantam justo receio de que se trate de investimento, que cobra retorno. Quem vai pagar essa conta?' Afro Lourenço, outro candidato escreveu que ''tantos gastos (na campanha) somente se justificam por questionáveis interesses que se beneficiam com a credibilidade da OAB. Fanfarras politiqueiras são realizadas na barganha de promessas vãs e utópicas''. É o sinal de que muitos na categoria detectam os desvios. Então, que o bom debate flua.

Publicado em 11/11/2003 no Jornal O Povo (Opinião)
* jornalista

 
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