Estou
com dom Aloísio
Antonio
Mourão Cavalcante*
“O tempo avançado nos convida
a ver as coisas de forma diferente. Responsabilizar o jovem
é bem mais libertador que ampará-lo com uma
cavilosa rede de proteção que não existe”
Em meio a uma verdadeira consternação
nacional, nosso cardeal Aloísio Lorscheider teve a
coragem de dizer que é hora da gente pensar em reduzir
a idade da responsabilidade penal. Isto é, um jovem
de 16 anos - e não apenas depois dos 18 - tem discernimento
suficiente para assumir a dimensão exata dos atos criminosos
que praticar. A declaração do prelado foi um
verdadeiro deus-nos-acuda! Parece que ele perpetrou um verdadeiro
sacrilégio. Coisa que ninguém deveria ousar
pensar, nem muito menos falar e defender.
Outros argumentaram que seria muito fácil
resolver os problemas do crime, da violência, da delinqüência
e de outros tais, simplesmente alterando artigos do Estatuto
da Criança e do Adolescente (ECA). Insistem em afirmar
que, na realidade, precisamos melhorar os níveis socioeconômicos
da população. Resolver o problema de moradia.
Colocar todos as crianças e adolescentes em escolas
de qualidade. Dar alimentação adequada. Enfim,
bolar outra sociedade, livre do mau e sem mal.
Não se explica, com essa assertiva,
por que filhinhos de papai, bem crescidos, bem nutridos e
outros tais... estejam, também, ingressando no mundo
do crime. E, praticando atos igualmente bárbaros. Lembram-se
do episódio do índio Galdino incendiado em Brasília?
Precisamos buscar outras explicações e motivos.
Claro que dom Aloísio não é
bobo. Ele, mais que muita gente, tem estatura moral suficiente
para afirmar o que falou. Qualquer pedagogo mais arguto sabe
que as crianças hoje tem um desenvolvimento psicológico
e emocional muito mais rápido. São, como se
diz, frutos da pós-modernidade. Conhecem as coisas
que se passam no mundo. Manejam as informações.
Tem acesso a mil esquemas... E, não me refiro apenas
às camadas socioeconômicas mais favorecidas.
O menino da favela está antenado no mundo. Sabe das
coisas. Conhece o ''me garanto'' e o ''vacilei'' Convive com
um grande leque de categorias morais e éticas. Amadurece
mais cedo e mais rápido.
Então, falar que um jovem de 16 anos
pode ser responsabilizado por seus atos é uma idéia
bem mais adequada aos nossos tempos do que aferrar-se a conceitos
arcaicos, próprios a uma sociedade clânica e
rural. O Brasil urbano, das grandes metrópoles, do
individualismo pautado como norma social, há que responsabilizar,
por conseqüência, cada um em particular.
Nessa perspectiva, dom Aloísio é
moderno e atualizado. E, pela autoridade moral que possui,
pela experiência que vivenciou ao longo das múltiplas
e significativas tarefas que exerceu, sabe que o crime não
é uma questão de idade. E que o tempo avançado,
nos convida a ver as coisas de forma diferente. Responsabilizar
o jovem é bem mais libertador que ampará-lo
com uma cavilosa rede de proteção que não
existe.
Nesse episódio e pela maneira quase
histriônica como alguns reagiram, dá para concluir
que ainda estamos em tempos de patrulhamento. Os patrulheiros
estão atentos para exorcizar todos aqueles que não
rezem por suas velhas cartilhas.
Publicado no jornal O Povo
em 23 /11/ 2003
* Antonio Mourão Cavalcante é médico,
antropólogo e professor universitário (mourao@ufc.br). |