Escravidão

Raquel Chaves *

''Eles fechavam a porta por fora, só abrindo às três da tarde para nos dar de comer. Quem se revoltava era agredida e castigada''. As palavras, que também constrangem, agridem e castigam qualquer cidadão de bem, escaparam de uma boca que, por muito tempo, foi de todos, e de ninguém. Na frase de uma das brasileiras libertadas no último domingo, em Portugal, um curto depoimento de uma escrava do sexo. No mesmo dia, só naquele país, outras 39 mulheres somavam-se a ela. E mais 15 na Espanha, todas vítimas do mesmo esquema de tráfico e exploração sexual.

O assunto rendeu manchetes na Europa, já é notícia aqui, se espalhará alhures. Não é a primeira vez e, infelizmente, não será a última. Assusta-se quem foi educado para ter respeito ao outro, seja de bigode ou seio farto. E o que dizer dos que já foram dados à luz em um universo culturalmente machista?

Já na década de 90, uma menina de 12 anos foi vendida como esposa a um senhor de 60, que a mantinha acorrentada para evitar que fugisse. O relato está no livro As Boas Mulheres da China (Companhia das Letras, 286 páginas), da jornalista chinesa Xinran Hue. Ela fez a polícia libertar a menina, sua conterrânea. O que ouviu das autoridades locais? ''Esse tipo de coisa acontece muito. Se todo mundo reagisse como a senhora, morreríamos de tanto trabalhar''.

Em setembro último, os também 12 anos de Ana-Maria Cioaba - uma ciganinha romena - pesaram a eternidade. Metida em um vestido de 4.600 dólares, foi a única que não sorriu em sua festa de casamento, que durou três dias. Derramou todo o pranto, fugiu no meio da cerimônia, mas acabou como as outras de seu povo. A família do noivo exibiu aos convidados o orgulho no sangue de Ana-Maria estampado no lençol. Prova do casamento consumado.

E ainda se diz por aí que ''hoje mulher é igual a homem''; que ''as feministas reclamam de barriga cheia''; ou pior: que os direitos independem do sexo. Frases equivocadas, fruto de um olhar limitado a um pedacinho de mundo. Ou de crenças de quem vive às voltas com o próprio umbigo.

publicado em 22 de outubro de 2003 no jornal O Povo
* Raquel Chaves é repórter do Núcleo de Cotidiano do O POVO (raquel@opovo.com.br)

 
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