Vergonha nacional

Carlos Ely*

Presidentes de 27 tribunais de justiça e o ministros do Supremo Tribunal Federal reagiram com veemência à proposta feita pela observadora da ONU para execuções sumárias, Asma Jahangir, de que o Judiciário brasileiro deveria passar por uma inspeção internacional feita por observadores da própria ONU. Reunidos em um encontro em Porto Alegre, os presidentes dos TJs elaboraram uma carta onde classificam como humilhante e uma violação da soberania nacional a idéia apresentada pela observadora paquistanesa.

Asma Jahangir, em quase um mês no Brasil, visitou os estados do Espírito Santo, Rio de Janeiro e São Paulo - que lideram o lamentável ranking de assassinatos praticados por grupos de extermínio. Durante entrevistas, a observadora da ONU responsabilizou a Polícia e a Justiça brasileira pela atuação destes grupos. Segundo ela, a certeza da impunidade tem feito com que os assassinos se tornem cada vez mais ousados. O caso do Espírito Santo, onde o ex-presidente da Assembléia Legislativa chegou a ser apontado como um dos principais líderes do crime organizado, é emblemático.

Apostando nesta impunidade os grupos de extermínio cometeram, nas últimas semanas, a mais grave afronta contra o Governo brasileiro. Duas testemunhas que haviam feito denúncias contra grupos de extermínio à própria observadora da ONU foram mortos, colocando em xeque a competência do governo brasileiro, que não consegue sequer proteger cidadãos em situação de risco. Flávio Manoel da Silva e Gerson Jesus Bispo tiveram a coragem de enfrentar o crime organizado, mesmo sabendo que esta atitude poderia ser fatal.

Suas mortes cobrem a todos nós brasileiros, principalmente os membros do Judiciário e do Governo, de uma imensa vergonha. Se o Brasil não conseguir encontrar e punir os culpados por estes crimes exemplarmente estará dando uma prova incontestável de incapacidade das instituições que deveriam proteger os seus cidadãos: a Polícia e a Justiça. Isto sim é humilhante. Isto sim é um risco à soberania nacional.

Fortaleza, 13 de outubro de 2003.
*Carlos Ely é jornalista e Diretor Executivo da Redação do O POVO(carlosely@opovo.com.br

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