Reação equivocada
Contribuição da ONU à reforma do Judiciário deve ser acolhida
(13/10/2003)

A relação entre Judiciário e Executivo alcança um alto grau de desgaste, no Brasil, preocupando os observadores da cena nacional. O último motivo para o confronto - o desejo da Organização das Nações Unidas (ONU) de fazer um diagnóstico sobre os fatores de emperramento da Justiça brasileira - toma proporções exageradas pela forma emocional como está sendo interpretado.

A manifestação da relatora da ONU, Asma Jahangir, que recentemente visitou o Brasil, baseou-se no levantamento feito por ela a propósito da atuação de grupos de extermínio que têm sido responsáveis por inúmeras execuções em todo o território nacional. Falhas graves, tanto na Polícia, como no Judiciário apareceram claramente nesse levantamento. Para piorar: a situação alcançou um ponto tão absurdo que duas testemunhas ouvidas pela enviada da ONU foram sumariamente executadas após denunciarem alguns desses crimes, gerando indignação e horror nos organismos internacionais de proteção aos direitos humanos.

Diante dessa realidade, Asma Jahangir sugeriu ao governo brasileiro o envio de técnicos da ONU para fazer um diagnóstico minucioso das deficiências do sistema judiciário brasileiro, oferecendo o know-how acumulado pela instituição nesse setor. A ONU faz esse trabalho rotineiramente para diversos países que apresentam problemas de funcionalidade nos serviços judiciários. Como país signatário de tratados internacionais que exigem um bom funcionamento das instituições fundamentais do Estado Democrático de Direito, o Brasil está comprometido com essas exigências e não teria razões para recusar um oferecimento desse tipo, tanto por ter problemas reconhecidos nesse setor, como pelo fato de que sua imagem externa está muito afetada em decorrência dessas falhas.

Dentro dessa perspectiva, não há como discordar dos que consideram equivocada a reação de setores do Judiciário que viram na intenção da ONU um desprestígio para Justiça brasileira e uma violação da soberania nacional. Ora, não se trata de uma iniciativa proposta por um Estado estrangeiro, mas por um organismo do qual o Brasil é integrante e, inclusive, aspira a ocupar um de seus cargos mais importantes: o de membro permanente do Conselho de Segurança. Seria uma contradição muito grande reivindicar um posto tão alto na ONU e ao mesmo tempo recusar a ajuda desse mesmo organismo, sob pretexto de interferência.

Há vários anos o Brasil discute a necessidade de reformar o Judiciário para livrá-lo dos fatores que o estrangulam. É consenso que uma Justiça lenta, ineficiente e pouco acessível aos seus cidadãos é um obstáculo ao próprio funcionamento do País. De uma forma ou de outra, os demais poderes do Estado - Executivo e Legislativo - têm sofrido reformas destinadas a aperfeiçoá-los, só o Judiciário tem resistido a essa necessidade, criando mil dificuldades para sua realização. Com uma Justiça emperrada e opaca o Estado Democrático de Direito termina aparecendo perante o cidadão como um simulacro. Rui Barbosa já dizia que ''Justiça atrasada não é justiça, senão injustiça qualificada e manifesta''.

A sociedade espera, portanto, dos seus magistrados mais lúcidos uma posição positiva no sentido de despolitizar esse debate e trazê-lo para o leito da racionalidade e do espírito público. Que recebam de braços abertos toda contribuição destinada a aperfeiçoar a Justiça, inclusive, a que pode ser oferecida por um organismo que tem o objetivo precípuo de fazer reinar o Direito e a Justiça em todos os quadrantes do planeta.

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