Cadê a coerência?
Representante da ONU pede acompanhamento de Judiciário brasileiro
(10/10/2003)

O assassinato de mais uma testemunha que denunciou à relatora da Organização das Nações Unidas (ONU), Asma Jahangir, a atuação de grupos de extermínio no Brasil, repercute na opinião pública nacional e alcança o Exterior. Enquanto isso, ministros dos tribunais superiores reagem às críticas da representante internacional por esta ter pedido um monitoramento da Justiça brasileira por parte da ONU, depois de detectar várias deficiências na ação de juízes contra as violações aos direitos humanos.

Há poucos dias, neste mesmo espaço, O POVO manifestava sua indignação diante da forma audaciosa como o crime organizado vem atuando no Brasil, citando o assassinato de uma testemunha que havia denunciado a ação de grupos de extermínio na Paraíba. A vítima, Flávio Manoel da Silva, foi executada cinco dias depois de falar com a representante da ONU que viera ao Brasil justamente para averiguar a atuação desses grupos. Pois bem, a mídia, ontem, divulgou um novo caso: a execução de outra testemunha que também conversara com a mesma funcionária: o mecânico Gérson de Jesus Bispo, que alertara para as investidas de grupos de extermínio no Recôncavo Baiano.

Ora, duas ações desse tipo realizadas no momento mesmo em que a enviada da ONU se encontrava no Brasil - e de pessoas que deviam estar sob proteção do Estado - não podem ser vistas como iniciativas isoladas: elas têm o objetivo claro de desmoralizar o Estado brasileiro e intimidar a sociedade. Não se admite que bandidos possam fazer esse tipo de desafio e permaneçam impunes, zombando das autoridades e da sociedade. Trata-se de uma afronta que merece ser respondida com mão de ferro, sob pena da desmoralização completa das instituições.

Uma das medidas mais imediatas deve ser a federalização dos crimes contra os direitos humanos. É preciso centralizar o seu combate nas mãos de um organismo específico que não esteja amarrado pelas fronteiras das jurisdições estaduais. De uma forma ou de outra, são redes criminosas que se apóiam mutuamente, ainda quando não estejam enfeixadas sob o mesmo comando. A pistolagem tradicional migra para o tráfico de drogas e ambos se mancomunam com grupos de extermínio, nos quais, como se tem revelado, quase sempre existe a participação de policiais. Nessa rede se misturam interesses variados que envolvem política, poder econômico e banditismo puro. Já havíamos alertado que esse processo ingressa num estágio perigoso que, ou é contido, neste preciso momento, ou o Estado perderá controle sobre ele.

Enfrentar essa conjunção criminosa requer mais do que providências rotineiras. É preciso uma conjugação de vários setores que envolvem desde o Estado aos organismos da sociedade civil. Repensar a forma como a Polícia e o Judiciário enfrentam esse desafio deve ser uma das primeiras providências. No caso da Polícia, a sua reestruturação e unificação são imprescindíveis. Quanto ao Judiciário, as falhas não são menores. A enviada da ONU identificou vários casos em que a ação da Justiça é um dos fatores de entrave para um combate eficaz a esse tipo de crime. A situação é tão séria que a relatora Asma Jahandir pediu um acompanhamento internacional da Justiça brasileira.

Ora, o Brasil é signatário de vários tratados internacionais que se referem especificamente aos direitos humanos, e já deve ter noção de que esse tipo de crime não pode mais ficar cingido apenas às jurisdições nacionais. A reação do Judiciário brasileiro contra esse pedido, sob a alegação de que fere a soberania nacional, não tem razão de ser, segundo o pensamento prevalecente nos especialistas em Direito Internacional.

O argumento da soberania não tem sustentação moral quando se trata de defesa da dignidade da pessoa humana, seja brandido por Bush, Pinochet, Fidel Castro, ou Milosevic. É incrível que os representantes do Judiciário brasileiro apelem para um argumento tão despido de credibilidade.

O Brasil (o Judiciário e as instituições do Estado brasileiro) tem obrigação sim, de responder perante os organismos internacionais sobre essa questão. Aliás, essa é a força moral do Brasil quando critica a ação unilateral e arrogante dos EUA, nos fóruns internacionais, exigindo que a Casa Branca se submeta ao ordenamento jurídico internacional. No mínimo, é preciso coerência.

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