EXPERIMENTA, EXPERIMENTA

Osmar Diógenes Parente *

Nós, que trabalhamos tratando o alcoolismo e outras dependências químicas, estamos nos sentindo violentados agredidos por essa publicidade, não é fácil.

''Experimenta, experimenta, experimenta''. Esse é meu medo. Isso é coisa séria, causa indignação, em um país em que 72% dos leitos dos hospitais são ocupados por conta de acidentes decorrentes do excesso do álcool. Atualmente a segunda causa de morte é a violência (homicídios, acidentes de trânsito, suicídios, estupros, ''experimenta, experimenta''...). Sendo que 80% de tudo isso ocorre das 18 horas de sexta-feira até às 16 horas de domingo, conforme o Instituto Médico Legal (IML).

Dizem as estatísticas que Fortaleza é a cidade do Brasil onde mais se bebe. Ainda dá para ''experimentar''? Com tamanha campanha de marketing, qual o adolescente não se acha ''desafiado'' a experimentar? Já pensou desafiar um adolescente?

Nós, que trabalhamos tratando o alcoolismo e outras dependências químicas, estamos nos sentido violentados agredidos por essa publicidade, pois não é fácil tirar alguém de uma dependência. Mesmo com muito esforço, uma boa e dedicada equipe, o índice de recuperação é ainda muito baixo. Pobre da família que passa por essa situação. Desesperada, sem saber onde pedir socorro. Traumatizada, seqüelada, tudo porque um dia alguém ''experimentou''. Gostou. Despertou um monstro dentro de si. E agora?

Ao Estado, infelizmente, compete arrecadar - excelente arrecadador, péssimo administrador. Nos países sérios, arrecada-se sete e gasta-se dois com prevenção e tratamento ao alcoolismo. No Brasil, o inverso, arrecadamos dois e gastamos sete, com os ''experimenta'' da vida. O pior? A desestruturação familiar, as perdas, a dor. Falência da sociedade.

Imagina, nosso país não tem dinheiro nem para implantar as creches necessárias, os idosos morrem ao relento, pois não temos abrigos. Como e onde vamos tratar tanta gente que vai ''experimentar''? Conforme a Organização Mundial de Saúde (OMS), o alcoolismo é uma doença, progressiva e fatal. Doze por cento da população do mundo já nasce com a predisposição ao alcoolismo.

No nosso caso 100% da população está estimulada, insultada, a ''experimentar''. Claro, calma, ''apenas'' 12% vão continuar ''experimentando''. Lembrando que o Brasil tem 180 milhões de habitantes, deverão continuar ''experimentando'', 21 milhões e 600 mil pessoas. Como a doença é progressiva, com certeza logo mais ganharemos o ''título'' de ''o país dos alcoólatras''. Que vergonha!

Apesar de tudo não vamos desanimar. Essa guerra, nós não podemos perder. Nossa defesa deverá ser a união. A partir de hoje, por favor, papai e mamãe, conversem mais com seu filho, estejam mais próximos dele, escutem-no mais, sejam mais afetuosos, pacientes, amigos. Só assim ele não vai ''experimentar''. Ele não vai experimentar.
Publicado no jornal o Povo em 20 /09/2003

* Osmar Diógenes Parente é psicólogo e coordenador do Instituto Volta Vida.

 
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