Sobre
as justiças
Plínio Bortolotti *
A
edição de 19/7 do O POVO traz na pág.
8 duas matérias que são exemplares
do funcionamento da Justiça. Uma delas informa que
uma fábrica poluidora
interditada em 12/7 por decisão liminar do juiz Yuri
Cavalcante Magalhães
(da 1ª Vara de Aquiraz) continuava a funcionar normalmente
(ainda estará?).
A
segunda matéria dava conta de que outra liminar, esta
de reintegração de
posse, deferida pelo mesmo juiz fora cumprida na praia do
Japão (Aquiraz)
por um oficial de justiça. Talvez porque os ocupantes
fossem pobres, os 12
policiais militares e outros ''14 homens'' que acompanhavam
o oficial de
justiça, não se sentiram na obrigação
de agir com civilidade. Eles
destruíram e atearam fogo nos 12 barracos, deixando
ao relento 35 famílias,
incluindo crianças.
É
certo que o juiz poderá dizer que está com a
consciência tranqüila, já que
fez o que lhe cabia do ponto de vista legal. Em um caso deu
a ordem para
interditar a fábrica poluidora - e no outro para desocupar
uma área
invadida.
Mas será que também não caberia a um
magistrado saber o que acontece com as
decisões que ele toma? Seu trabalho é apenas
analisar os ''autos do
processo'' fechado no seu gabinete, desconectado do mundo
real? Não cabe à
Justiça cuidar para que suas decisões sejam
cumpridas, contra pobres ou
ricos? E - neste caso - se dentro da legalidade e com respeito
que as
pessoas (incluindo as pobres) merecem? E ao oficial de justiça,
não caberia
evitar os excessos? O fato é que casos como esses ou
parecidos são
dramaticamente comuns, repetindo-se aos milhares Brasil afora.
Com
relação a situações como as descritas
acima, a morosidade, os custos
proibitivos do processos judiciais, e até a corrupção
de atinge a alguns
segmentos da Justiça - não se vê as entidades
de classe do judiciário
levantarem a voz com intensidade audível pela sociedade.
No entanto, agora,
os juízes ameaçam o governo - e talvez o equilíbrio
democrático - com uma
greve, porque discordam que a reforma da Previdência
retire alguns reais de
suas aposentadorias.
Os
perigos que rondam o Judiciário não estão
na reforma da Previdência, mas
na falta de uma reforma geral neste Poder, que deveria ser
a preocupação
principal dos juízes.
publicado
no jornal O Povo em 23 Julho 2003
* Plínio Bortolotti é jornalista e editor-adjunto
do Núcleo de Conjuntura do O POVO
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