Justiça
para justiça
A imprensa não
tem dados trégua ao caso Pinheiro Landim. O deputado
federal, bancada do Ceará, foi acusado de subornar
juízes para concederem hábeas corpus a traficantes
de drogas. Uma coisa hedionda, se realmente comprovada.
O novo presidente da Câmara dos Deputados, João
Paulo, aceitou a tarefa de investigar e está vivamente
empenhado em levar às últimas conseqüências
o processo, ameaçando que não ficará
pedra sobre pedra. Na busca da verdade, os deputados aceitaram
cortar na própria carne. O poder Legislativo tem
sido sempre alvo de graves acusações. Todos
os dias a impresa abre manchetes com acusações.
Todos os dias a imprensa abre manchetes com acusações
aos legisladores. Tratando-se de um poder extremamente exposto.
Por aquelas bandas nada consegue escapar impune. A transparência
tem sido cada mais evidente. Aqui mesmo, em Fortaleza a
CPI da Merenda Escolar, realizada pela Câmara Municipal,
foi muito conseqüente e concreta. Apontou culpados
e enumerou as falcatruas.
Será que podemos
dizer o mesmo do poder Judiciário? No caso especifico
dos traficantes, se o deputado Pinheiro Landim tem culpa,
se realmente conseguiu sensibilizar os magistrados a tomarem
decisões graciosas e imorais - obviamente - ele não
pode ser o único a sentar-se no banco dos réus.
Afinal, se existe um corruptor, onde está aquele
que se deixou corruptor, onde está aquele que se
deixou corromper? Será que o magistrado que caiu
na conversa de deputado é inocente? Pode postar-se
como vestal da moralidade? Nomomento em que a Câmara
Federal tomar a decisão de punir e afastar o seu
deputado, estará passando um recibo para que a Judiciário
também assuma sua parte nessa história. Se
os legisladores admitem que o deputado subornou a autoridade
judiciária e aplicam uma grave punição,
tipo cassação de mandato, estarão indicados,
claramente, que o Judiciário não pode guardar
em seus quadros criminosos de toga suja. Assim como a sociedade
se manifesta, em uníssono, pela punição
do deputado, ela exige que o judiciário também
mostre os seus culpados e que não tente camuflar-se
em filigranas e manobras protecionistas eivadas de um corporativismo
caviloso. Todo o magistrado tem poder delegado. Recebeu
uma procuração da sociedade para interpretar
as leis e defender os altos interesses da nação.
Não pode ser pago e sustentado por traficante de
drogas. É um crime muito grave e não pode
continuar fazendo parte do grupo daqueles que julgam.
A sociedade espera -
serenamente - que o poder judiciário não se
acovarde e não deixe de punir os seus criminosos,
exemplarmente.
Antonio
Mourão Cavalcante é médico, antropólogo
e professor universitário.
J. O Povo em 16/02/2003