VIOLÊNCIA E AGRESSIVIDADE
HUMANA
LIENE MARTHA LEAL
A palavra agressividade
tem sua origem no latim aggredior, aggredi, que, originalmente,
significava acometer, avançar decididamente, mover-se
ativamente para um objeto qualquer, dando a idéia
de uma disposição para enfrentar obstáculos.
Em outras palavras, trata-se de uma manifestação
de força e afirmação pessoal.
Com o tempo, o
termo agressividade passou a ter dois significados bem distintos:
1.
um significado positivo: de força, de afirmação
e de exercício do poder pessoal e de capacidade para
superar obstáculos;
2.
um significado negativo: de hostilidade, de ofensa às
pessoas, de disposição para a violência
e para a lesão física ou moral.
Neste último
sentido, a agressividade ainda pode ser classificada como
heteroagressividade (dirigida às outras pessoas)
e autoagressividade (dirigida contra si mesmo).
Moraes, psiquiatra
forense, considera a agressividade um comportamento normal,
que faz parte da natureza do ser humano, nasce com ele,
sendo, portanto, inata e que desempenha um papel muito importante
nos comportamentos de preservação da vida
e da espécie. Segundo ele, através de processos
educacionais e dos mecanismos de controle social, a agressividade
vai modificando suas formas de expressão e adquirindo
características específicas nas condutas individuais,
podendo ou não, vir a prejudicar outrem.
De acordo com Moraes, a violência surge a partir da
agressividade, quando a pessoa passa a direcionar racionalmente
a sua energia agressiva. Sendo, portanto, um comportamento
adquirido, onde a pessoa se instrumentaliza, se prepara
para agredir o outro ou a si mesmo. A violência seria
uma manifestação direta, explícita,
desmascarada e brutal da agressividade, adquirida através
do aprendizado. É uma conduta própria e exclusiva
do ser humano, não existindo nos outros animais.
Para o antropólogo Girard, a violência surge
numa relação de rivalidade em torno de um
mesmo objeto. Segundo ele, a violência não
seria conseqüência de uma coincidência
de interesses de duas pessoas por um mesmo objeto. O sujeito
deseja o objeto porque o outro também desejou. A
partir do momento em que o sujeito deseja alguma coisa,
o seu desejo destaca o objeto desejado para um rival, que
passa a desejá-lo também. O desejo é
por natureza, mimético, representando uma busca infinita
de um modelo ideal a ser seguido. Esse ato de imitar o desejo
do outro é que desencadeia o conflito. A violência
gerada por este mimetismo não tem limites, tornando-se
capaz de desencadear um instinto louco de vingança
sem fim.
Na visão de Girard, a sociedade necessita de um “bode
expiatório” para direcionar toda essa violência.
Então, ela cria seus rituais e sacrifícios,
com o objetivo de mascarar a violência, ditando normas
e regras de convivência social e construindo, assim,
as civilizações. Neste sentido a violência
é considerada fundadora. Em outras palavras, para
Girard, a violência é que constrói uma
civilização.
Segundo a psicóloga social Ana Bock, a agressividade
é constitutiva do ser humano e a cultura assume um
papel importante como reguladora dos impulsos destrutivos
do homem. Na sua visão, a educação
e os mecanismos sociais da lei, da cultura e das tradições
têm como objeto o controle e a subordinação
da agressividade. Portanto, desde criança somos educados
no sentido de reprimirmos nossa agressividade e mantê-la
sob rígido controle, ao mesmo tempo em que a cultura
cria condições para que possamos canalizarmos,
direcionarmos nossos impulsos agressivos para produções
consideradas positivas, ou socialmente aceitas – como
as produções intelectuais, artísticas,
esportivas, entre outras.
É durante o processo de socialização
que espera-se que o indivíduo estabeleça vínculos
significativos com outras pessoas do grupo social ao qual
pertence e internalize as normas e regras de controle social
vigente em seu grupo. Neste momento, torna-se desnecessário
o controle externo, pois o mesmo já encontra-se dentro
do indivíduo. Mesmo assim a sociedade sente a necessidade
de criar seus próprios mecanismos de controle e punição
dos comportamentos agressivos, através das leis e
da ordem jurídica vigente em cada cultura.
Embora a agressividade tenha um papel importante na formação
da violência como uma patologia social, faz-se necessário
também compreender como a organização
social estimula legitima e mantém diversas formas
de violência. Como exemplo temos a impunidade, a morosidade
do nosso sistema jurídico e as brechas nas leis que
permitem as mais diversas manobras jurídicas que
muitas vezes beneficiam o agressor.
Mestra em Psicologia, Professora Universitária,
Psicóloga Clínica e
Coordenadora de Psicologia da APAVV.