JUDICIÁRIO
- RETRATO DE UMA CRISE
Marlúcia de Araújo
Bezerra Pedrosa
Juíza da 17ª Vara Criminal de Fortaleza
Inquietantes notícias de supostas práticas delituosas por
magistrados me incentivaram a externar opinião sobre o perfil
dessas pessoas, cuja importância da função deixa-as sob
permanente vigília da sociedade. Ouso afirmar que a crise
que assola o Judiciário reside fundamentalmente na falta
de vocação. Os vocacionados se adjetivam pela humildade
e coragem, conscientes de sua dimensão humana, falível por
natureza. Não é o juiz membro de uma casta privilegiada,
senão alguém de quem se pode cobrar sacrifícios imensuráveis.
Ao insuperável RUI se atribui a assertiva: o juiz deve se
caracterizar, acima de tudo, pela honestidade. Rogando vênia
ao grande baiano, não basta. Honesto sim, e corajoso. A
omissão é, sem dúvida, imperdoável no crucial instante.
O magistrado se destaca não só pela sua idoneidade moral
e saber jurídico, mas pela coragem cívica, cuja fonte é
o inarredável compromisso com a ética. O judicante ideal
não ingressa na carreira atraído pelo salário, em busca
de posição social ou vislumbrando nela oportunidade para
beneficiar-se do cargo, contemplando familiares e áulicos.
Vê na magistratura um ideal, sonhando com o engrandecimento
da instituição e lutando sem tréguas pelo objetivo, mesmo
sujeitando-se a retaliações, ao contrário de outros que
se deixam escravizar na vaidade ou covardia. Míopes por
conveniência e surdos por subserviência, ignoram a realidade,
omitindo-se no movimento de moralização. A indiferença diante
do caos que se estabeleceu em algumas áreas do Judiciário
é inaceitável. Louve-se, por oportuno, a posição da Associação
Cearense de Magistrados que, embora não tendo voto para
influir no processo, levanta sua voz, firme e forte. Os
obstinados, apesar dos pusilânimes, hão de vencer, lembrando:
“Não procures tornar-te juiz se não fores bastante
forte para destruir a iniqüidade”(ECLES. 7, 6 ).