SILÊNCIO E IMPUNIDADE*
“Calar-se é
deixar que acreditem que não se julga
nem se deseja nada, e em certos casos é, na realidade
nada desejar... O silêncio bem o traduz. Mas, a partir
do momento em que fala, mesmo dizendo não,
ele deseja e julga.” (Albert Camus)
A Associação de Parentes e Amigos de Vítimas
de Violência-APAVV, o SOS Mulher, a União das
Mulheres Cearenses, o NAVE e o Fórum de Mulheres
Cearenses lembram hoje, em ato público, os 10 anos
do assassinato da empresária Ethel Angert morta com
08 tiros, aos 28 anos, pelo seu ex-marido Flávio
Carneiro, empresário e proprietário da loja
TOK Disco. Na época o casal já se encontrava
separado há 05 anos. O acusado foi pronunciado por
homicídio qualificado, mas ainda não foi a
julgamento público.
Como a empresária Ethel Angert, centenas de mulheres
foram assassinadas por seus maridos/companheiros/namorados
e muitos desses casos permanecem impunes.
O aumento da violência contra a mulher decorre da
mistura perversa entre impunidade – gerada pelo desprezo
da sociedade, morosidade judicial e omissão do poderes
públicos – e a cultura do machismo, retratada
no fato do homem entender-se no direito de matar/lesionar/ameaçar
a mulher quando “considera que não há
mais como controlá-la em seu todo, tanto o corpo
como seus desejos, pensamentos e sentimentos”. Os
assassinatos de mulheres na região do Cariri falam
por si só.
Lembrarmos do caso Ethel Angert é rompermos o silêncio
cúmplice que gera novas vítimas do femicídio
- “o assassinato de mulheres por razões associadas
às relações de gênero”
- e que prolonga a impunidade; é desejarmos a implantação
de políticas públicas que amparem as vítimas
de violência (Centro de Atendimentos, Casas de Abrigo,
Delegacia de Mulheres etc.), e, em especial, é evitarmos
que a próxima vítima seja você.
ANDRÉ LUIZ DE SOUZA COSTA, 31 anos,
é Coordenador Geral da APAVV e Vice-Presidente do
Conselho Deliberativo do PROVITA-CE; e CLARISSA LIMA DE
OLIVEIRA, 25 anos, é advogada e assessora jurídica
do Gabinete do Vereador José Maria Pontes-PT/CE.
(*) publicado no jornal
O POVO, edição de 17.10.2002