VÍTIMAS,
IMPUNIDADE E DIREITOS HUMANOS*
“Quantas vezes a gente lê nos
jornais certas colocações em que as pessoas
dizem: ‘E as vítimas?’. ’E os direitos
da vítimas?’. ‘Porque esses defensores
dos direitos humanos não pensam nos direitos das
vítimas?’ Quer dizer, na verdade, isto é
um sofisma. Quando se faz a defesa dos direitos humanos
o que se quer é que não hajam vítimas.
É muito hipócrita ver uma sociedade violenta
estimular a violência e depois oferecer flores à
família da vítima. É preciso que haja
um tipo de sociedade em que não seja necessário
oferecer flores à família de vítimas”.
(Dalmo de Abreu Dallari, Jurista)
Amanhã, será realizado na Assembléia
Legislativa do Ceará, o seminário Vítimas
de Violência, Impunidade e Direitos Humanos, promovido,
entre outras entidades, pela Associação de
Parentes e Amigos de Vítimas de Violência (Apavv).
O evento será uma ótima oportunidade para
analisarmos a atuação dos poderes públicos
em relação às vítimas, como
também para divulgar as ações das entidades
de defesa dos direitos humanos, em defesa das pessoas vitimadas
pela violência e criminalidade.
Para aqueles que, hipocritamente, se recusam a aceitar uma
política eficaz de segurança pública
é inseparável do respeito aos direitos e garantias
fundamentais expressos na Constituição da
República, e que difundem, por todos os meios possíveis,
serem os ativistas de direitos humanos defensores de bandidos,
não deixa de ser um choque a realização
de um evento como esse.
Quando levantamos a bandeira dos direitos humanos não
defendemos a impunidade de criminosos, mas o respeito ao
Estado Democrático de Direito. Não temos dúvidas
de que a efetivação dos direitos humanos também
se dá pela responsabilidade judicial de todos os
que cometem crimes e abuso de poder.
Ao mesmo tempo, exigimos que os poderes públicos
controlem seus agentes a fim de que, não apenas respeitem
os direitos humanos, mas também desenvolvam ações
que visem evitar o surgimento de novas vítimas e
promovam o amparo de pessoas já vitimadas.
Por isso, a Apavv defende o fim da im(p)unidade parlamentar,
o controle de armas de fogo, a automação dos
órgãos periciais, a implantação
do Programa Cearense de Proteção a Vítimas
e Testemunhas Ameaçadas, do controle social do judiciário
e do Programa Estadual de Direitos Humanos.
Todas as pessoas que comungam com essas idéias, e
que não pretendem apenas “oferecer flores às
famílias das vítimas”,são nossas
aliadas contra a impunidade, a violência e em defesa
dos direitos humanos. Afinal, “não nascemos
vítimas, mas nos tornamos”.
André Luiz de Souza Costa, é coordenador
Jurídico da Associação de Parentes
e Amigos de Vítimas de Violência (APAVV) e
Mestrando em Direito da Universidade Federal de Santa Catarina
(UFSC).
(*) publicado no jornal
O POVO, edição de 24.06.2001